Mais um dia de luto. Os chineses choram, choram, choram. Não tenha dúvidas do enorme luto que tingiu o Império do Meio do sangue que pouco tem a ver com a vibração de sua bandeira. Quanta dor!
Em meio à inquestionável tragédia e de tantos que choram a perda de parentes, amigos ou que apens se compadecem com o sofrimento dos compatriotas, recebi ligações de amigas de Wuhan perguntando se eu estava bem. Nessa cidade, prédios caíram. Em Shanghai, foi apenas susto. Mais uma vertente do povo chinÊs. Quando o escolherem para amigo, esteja preparado para uma amizade que seguirá até o fim. Se não te escolherem, força para enfrentar desprezo e, muitas vezes, destrato.
O terremoto pode trazer mudanças que transcedem o sentimento de tristeza. Pode ser, ironicamente, a chance para que os ânimos se apazigüem internamente. Não é novidade nenhuma nesse blog, mas é que fico tão chocada com a raiva que um chinês pode acumular dentro de si quando algo “suja” a face do país…
Resolvi escrever esse post após assisti ao filme O Pianista. Numa das cenas, o judeu polonês Wladyslaw Szpilman, durante a Segunda Guerra Mundial, hesita em entrar em um restaurante em Varsóvia, na Polônia, em cuja porta há a placa “Proibido cães e judeus”. Mensagem semelhante foi lida pelos chineses durante a colonização inglesa, pendurada nos bares de scoth em Xangai. Décadas depois, eis que somos nós, ocidentais, que sentimos na pele essa espécie de xenofobia, motivada desta vez pela mordaça à livre expressão. Pelo Tibete e seus protestos.
No meu prédio, no dia do terremoto, havia a placa: “Caro condômino, caso note a presença de algum estrangeiro no prédio por mais de 24 horas, avisar imediatamente à polícia”. O objetivo é checar se exsite alguém sem visto, sem ter sido registrado na polícia. Caso chegue na China sem ser turista e não compareça à delegacia imediatamente avisando onde mora, o estrangeiro pode ser preso.
E se instala o clima da delação. Dos alemães dedurando à SS a presença de judeus nos países sob o domínio de Hitler.
Drama à parte, o fato é que essa catástrofe do terremoto vai fazer o país, creio eu, desarmar-se. A França apressou-se em demonstrar condolências. Os europeus agilizam doações. E todos se comovem com o drama chinês. Vamos ver se na dor, a raiva se dissipa.
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Na China, a Gestapo vive
Maio 19, 2008Nós somos apenas seres rebolantes? Ai que inveja dos carinhas de sono
Março 11, 2008Após um recesso de inspiração permeado de preguiça e de vontade de fazer farra (A neve derreteu, o sol saiu, ebaaaaaaaa), resolvi escrever novamente.
Vou começar com perguntinhas básicas: o que você responde quando um estrangeiro pede para explicar o que é carnaval? O que você responde se te perguntam se o Brasil é violento? Tempo… (pode pensar nas meninas do antigo “Fantasia no ar” contando o tic-tac do relógio, só para fazer rir…)
Pois é, pensou? Ok. Quanto à primeira pergunta: quase mato um brasileiro que definiu o carnaval como uma festa de mulher nua e cerveja. Só. Mas, avalie se você não caiu na tentação de definir a folia de Momo assim. Quanto à segunda pergunta, não sei vocês, mas eu não consigo mentir. Erro, acerto, não sei. Mas, confesso que desde que cheguei tenho pensado em quanto nós somos culpados por deixarmos os gringos cuspirem no Brasil. A nossa terra ser uma casa de Mãe Joana.
Bem, um dia, quase mato um palestino que disse que eu era “orgulhosinha demais para ser uma brasileira”, inconformado porque eu não lhe dei atenção a noite inteira. Então, meu caro, se você acha que toda brasileira tem que ser fácil e desfiei um bláblábláblá. E, do nada, veio na minha cabeça falar: “Rapaz, tu achas que brasileiro é covarde é? Que vocês são melhores porque fazem medo ao Tio Sam com as suas bombas terroristas, pois saiba que quando foi preciso brasileiro pegou arma e seqüestrou embaixador americano. Pelo menos, tenho um país para chamar de meu”. Ok, não fui legal. Não tinha porque falar esse trecho. Mas, mereceu, convenhamos, o cara mereceu ouvir. (Ele que não brinque, meu sangue latino quando ferve fica mais perigoso do que qualquer bomba. É capaz do Hamas querer me cooptar)
Onde quero chegar é: China e Brasil tão no mesmo balaio. Fazem parte do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e South Africa). A sigla que representa os países em desenvolvimento, para onde uma tuia de gringo tá correndo atrás de emprego. Vocês já pararam para fazer uma busca nos jornais sobre o tema “China”? Os assuntos são sempre superlativos: “A China é um canteiro de obras”; “Quinze por cento de crescimento”, “Chineses aprendem inglês para as Olimpíadas”. Fiz o mesmo nos jornais chineses sobre o Brasil. “Modelo faz 15 plásticas para sambar no carnaval”, “Mulheres e beleza na Sapucaí” e uma notinha sobre o petróleo achado em nosso território.
Onde está o erro? Quero saber. A gente tá errado em ser um país transparente? Não. Mas, também quem se abaixa demais mostra os fundos. Quem acompanha meu blog já notou que a China não é esse paraíso de desenvolvimento, que tem menino fazendo cocô na rua (seja tradição ou não, digamos que não é um costume globalizado), gente catando lixo para se alimentar, problemas sociais. Malandragem, sim. Essa semana, um hóspede alemão foi assaltado. Chegou na recepção e falou: “Vou ao Brasil, recebo uma carta da empresa : cuidado, você está no Brasil. Aqui, me dizem que é um paraíso e é a primeira vez que sou roubado”. Detalhe: o mala chinês conseguiu abrir o bolso interno do casaco do cara, que estava com zíper fechado. Minha amiga brasileira foi roubada cinco vezes aqui, nenhuma no Brasil. Pô, mas onde está o erro, repito.
Não estou aqui querendo que a imprensa brasileira manipule informações como acontece aqui na China. O que deixa esse bando de carinha de sono alienado da própria realidade do país.Mas, tá na hora do nosso país se posicionar para o mundo. Oras! Posicionar-se institucionalmente. De que adianta pleitear cadeira na Onu, mandar Exército para o Haiti, se o que vai para o mundo é biquíni e futebol apenas?
E, aí,amigo, serei libertária como os americanos. Não vamos esperar por Lulinha Paz e Amor. Começa na gente. Quantos de vocÊs se lembram do nosso terrorismo na ditadura? Algo para se envergonhar? Não creio. Mostra que quando é preciso a gente reage. Quem se lembra que o nosso Exército tá pacificando o Haiti? Que carnaval tem mulher nua, mas muita história para explicar até onde isso chegou, história de descendentes de escravos que vão às ruas relembrar as suas tradições, dos índios e que traduz nessa festa do povo o espírito das uniões das raças do país?
Macharada, em vez de se vangloriarem para gringo que no Brasil mulher é fácil, é melhor pensar que a gente usa biquíni e pouca roupa por causa do calor. Se a gente respeita quem usa burca, a galera tem que encarar a nossa pouca roupa como algo que tem explicação e precisa ser respeitado tanto quanto. Mulherada, tá bom de gostar de ser tratada como um ser rebolante por gringo.
Enquanto isso… na China de Mao… a mulher chinesa é a mais pura do mundo (é de fazer rir, a mulherada toca o terror aqui), os serviços bancários “são os mais seguros do mundo” (pense duas vezes antes de fornecer seu número de cartão de crédito), inglês é língua do passado porque o chinês é a nova moda (Quem se arrisca a estudar mandarim: boa sorte!) e experimente falar mal da terra para um olhinho puxado. É um dos maiores erros. Chinês não aceita ter sua face desfeita. Aí, é história para as cenas dos próximos capítulos.
Com Hu Jintao ou sem Hu Jintao, chines e grande de todo jeito
Fevereiro 15, 2008Minha gente,
eu nao podia deixar de compartilhar com voces a experiencia de passar um Ano Novo Chines na Terra de Mao. Senta que la vem a historia. Primeiro, eu preciso dizer que estava num banzo so. Triste, assistindo ao carnaval do Recife pela Internet, achando tudo sem graca, sem cor. Ilhada em meio a neve (Para quem nao sabe, esse foi o pior inverno dos ultimos 40 anos, ha quem diga dos ultimos cem. Aeroportos fechados, estacoes de trem sem funcionar e um clima de desespero tomando conta dos chineses que moram distantes de suas familias).
Acontecia que o Ano Novo Chines ou The Spring Festival estava chegando. Cinco dias de folga. Comprei minha passagem para Beijing. Se ficasse mais um dia em Wuhan, fazia as malas e voltava para o Brasil. Estava tratando como mais um feriado longo que teria na vida. Nao sabia que seria mais um momento de paixao fulminante pela China.
A primeira coisa que muda e o clima da cidade. Placas com os caracteres chineses sao espalhadas por todos os lugares. Todo mundo so fala em jogar madja (especie de domino chines, em que os apostadores varam a noite jogando). O Ano Novo Chines e quando as filhas que casaram tem a unica chance de voltar para casa no ano e visitar os pais. Os universitarios tem folga nas aulas e viajam para casa. Por isso que foi tao duro ver as estacoes de trem abarrotadas de neve e o governo tratou de emitir mensagens de animo para quem nao conseguiu embarcar para a cidade natal.
Mesmo assim, ainda continuava so pensando na minha folga.
Ate que a minha gerente me chamou para uma aula sobre o ano novo chines. E, como tudo aqui na China, cada silaba de palavra diz tanta coisa como os detalhes dos pagodes chineses.
Primeiro, e preciso decorar as frases de cumprimento. Xin nian hao ou Xin nian kuai le (Feliz Ano Novo), Gong xi fa cai ( essa daqui so se diz aos empresarios, desejando fortuna no ano novo e e preciso juntar as maos cerradas, como se abracando uma a outra e baixar a cabeca), Hong Hong Hong (na traducao literal: vermelho, vermelho, vermelho, mas, na verdade, quer dizer uma Super Boa Sorte, ja que o encarnado e a cor escolhida para desejar o que ha de bom para o proximo).
Segundo, e preciso usar nem que seja um lenco no pescoco na cor vermelha. Ir a casa de alguem toda de preto e mandar mau agouro para a familia.
Terceiro, tem um lance que eu considero a maior maletice do mundo. E uma tal de bolsinha vermelha com dinheiro, meu caro, que voce precisa carregar ate o dia 15 de fevereiro, quando acabam as comemoracoes e as lanternas vermelhas se acendem. O lance e o seguinte: quem for mais novo que vc, vai chegar com um tal de Hong Bao Nai Lai. E ai, meu amigo, vc tem que dar a bolsinha vermelha com nem que seja um kuai dentro. O meu problema e – todo mundo sabe que eu sou a maior mao fechada do mundo e todos os meus colegas sao mais jovens do que eu! Se prepara para o golpe…
Desde da madrugada do dia 6, quando sai para pegar o voo para Beijing, que escuto Hong Bao Nai Lai. Nao aguento mais. Amanha, me rendo ao espirito do ouro chines e saco dinheiro. Puta da vida. Mas, fazer o que? Quem nao aguenta, vai para a Disney.
O pior e que ate os chineses tao me dizendo que a galera ta sendo mala comigo, porque a tradicao so vale para as criancas. Nao te digo que Wuhan e o lugar dos malandros. Mas, tambem, me vingo. Amanha, vou sair pedindo bolsinha vermelha para tudo que e gerente. Voces vao ver.
Bem, preciso contar o que aconteceu quando cheguei a Beijing. A primeira boa noticia era que iria passar a virada do ano novo com uma familia chinesa. Gracas a Amelie, namorada do meu amigo brasileiro, Victor. A doce francesa havia sido convidada por uma colega chinesa e estendeu o convite a mim.
Compramos uma cesta de frutas. Sim, essa e a forma que se deve retribuir a quem lhe oferece um jantar na China. Ao chegar a casa de Wendy, uma lar animado, decorado com bolas, imagens de ratinhos felizes, fitas vermelhas. Sorrisos estampados e um orgulho de estar recebendo estrangeiros. A filha iria completar 24 anos, idade magica (os chineses acreditam que de 12 em 12 anos, quando o seu horoscopo chines casa com o do ano em vigor, a nova idade define os rumos que a sua vida vai tomar nos proximos anos). Entao, Wendy resolveu convidar seus amigos de fora.
A mesa estava posta de um canto a outro coberta de comida. Cada prato lindo. Sentamos todos em volta dela. Entre os parentes, a vozinha de 86 anos, cabecinha branca e sendo paparicada por todos, no tipico respeito dos orientais aos mais velhos (Me deu uma saudade danada da minha tia-bisavo Tatai, que nos deixou aos 96 anos).
Primeiro, quem tem que comecar a comer sao os convidados. So que ate que a gente entendesse isso, demoraram minutos entre todos se entreolhando. Quando a comilanca comecou, a gente ate que tentou se livrar dos pratos apimentados. Mas, o chef, tio de Wendy, tava tao orgulhoso de ver a gente se esbaldando nos pratos, que comecou a enfiar tudo que e comida nas nossas tigelas. Haja cerveja para apagar o incendio na garganta!
Quando a comida acabou, todos seguiram para a sala para ver o especial da TV Chinesa de Natal. O nosso velho Roberto Carlos e a batida Xuxa do dia 24 aqui sao um show com operas, bailarinas e pecas de teatro com mensagens moralistas. Um grupo adolescente, tipo Rebeldes, cantava que “chines e a nova moda, que ninguem quer mais aprender ingles, porque e coisa do passado”. Depois dessa, cai no sono, dei um cochilo. Quando acordei, expliquei que na America do Sul ha o habito da cesta. Meia-verdade para escapar do mico.
Aqui, uma curiosidade. Todos os mais velhos da casa de Wendy falam russo. Reminiscencias do mundo comunista de Mao. E, por falar em governo, aqui vale contar uma passagem interessante. De repente, no meio do especial de Ano Novo, aparece Hu Jintao carregando sacos de neve, em meio aos funcionarios que tentavam limpar os trilhos dos trens e salvar o ano novo chines. Juro que vi os chinas rindo. Comentei com Victor: “Rapaz, eles tao tirando onda de Hu Jintao tanto quanto a gente tira onda dos discursos de Lula”. Victor:” Sera?”. A gente perguntou a Wendy. A reposta foi:” Eles devem ter rido mesmo, afinal, sabem que Hu Jintao esta fingindo numa propaganda do governo”. Wendy, por via das duvidas, pergunte, minha querida. Eis que ela volta com a seguinte resposta: ” Eles nao cacoaram, riram de orgulho, porque sabem que Hu Jintao e um homem bom e honesto”. Sacaram o espirito da coisa? Sacaram como as coisas sao diferentes entre a terra do Dragao e do Cristo Redentor?
Bem, para terminar a noite, os chineses nos levaram para ver os fogos de artificio, quando a meia-noite se aproximava. Primeiro, em frente de casa, cada familia solta seus rojoes, suas bombinhas, que, diga-se de passagem, beeeeem mais poderosas que qualquer uma que ja tenha visto no Sao Joao de Caruaru. Bem, os carros de policia se espalham em cada esquina, caso seja necessario resgate. E tao certos mesmo. Nunca vi tanta lapa de doido soltando fogos perto de fio de energia. Por isso mesmo, o governo proibiu que as familias de algumas cidades continuassem com a tradicao. Mas, elas nao tao nem ai.
Eis que chegaria o creme de la creme. Fomos todos ver os fogos de cima de um hotel. Minha gente, meu coracao bateu num ritmo semelhante ao do frevo quando vi os fogos na Cidade Proibida, na Praca da Paz Celestial. Os ocidentais convidados estavam embasbacados. Victor so dizia que aquilo colocava o reveillon do Epcot Center no bolso para nao dizer a frase que ele realmente falava com palavras bem mais impactantes. O detalhe era que o show nao era oficial. Era comandado por cada familia que se incumbia de tornar a virada do ano do Rato algo inesquecivel. Certo que estavam ainda mais empolgadas por ser um ano tao especial, com o orgulho de carregar um pais das Olimpiadas e de economia crescente. A dimensao do cenario era como se conseguissemos avistar os fogos de Boa Viagem a Casa Forte. Sem exageros.
Depois de tudo o que vi, ate que faz sentido a bolsa vermelha. Visitar a Muralha da China e se tornar uma Grande Mulher, como dizia Mao, e a Cidade Proibida, faz mais sentido ainda. Carregar a dor no joelho e nas coxas de tanto andar e subir escadaria nao e nada diante do que e sentir a imensidao dessa alma chinesa. Ate porque, se eu estivesse no Recife, estaria com tantos calos e tao quebrada pelo sobe e desce ladeira de Momo.
Com um detalhe: nunca recebi tantas noticias boas desde que voltei do ano novo chines. Amigos empregados, casando, primo aprovado no vestibular. Salve, Buda, que fez o sol brilhar de vespera e permitiu que milhares de chineses voltassem para casa.
Feliz Ano Novo do Rato! Que a forca e a vontade de ser grande dos chineses tomem conta de suas almas em 2008!
Hello world!
Janeiro 27, 2008Welcome to WordPress.com. This is your first post. Edit or delete it and start blogging!